segunda-feira, 27 de junho de 2011

Luz, quero luz!

Quero luz, por que a vida é um teatro, uma bela peça que se desenrola como um musical, são sons que se entrelaçam, ritmos que dançam juntos. Quero luz, vinho, palco e cortina. Quero vida, plena vida. Uma taça na mão e uma mão na outra, num aperto forte que só a amizade faz. No peito um abraço e na alma a certeza de que valeu a pena viver. Tudo que não quero são arrependimentos, querer voltar atrás é amargo, fétido e, portanto, desnecessário. Tudo que faz mal, que vai contra a vida deve ser lançado fora. E qual melhor definição vida que andar para frente?


Vida

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais
Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mais Música


Realmente acredito que o pior lugar pra se encontrar uma fé madura hoje em dia é dentro das igrejas. Pior não pois não haja, mas por que parece que a proporção é a mesma, dentro e fora, porém na igreja é mais decepcionante.
 Quando falamos então de expressões artísticas com valores do reino a busca por tais coisas dentro da igreja se torna uma tarefa hercúlea de garimpo, que causa mais náusea que cansaço, apesar de que quando encontramos temos uma alegria enorme.
Na contra mão do evangeliquês fico com Chico Buarque em mais uma daquelas canções que deveriam estar em nossas mentes e em nosso meio.


Sobre Todas as Coisas

Composição: Edu Lobo/Chico Buarque de Hollanda

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus
Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador
E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor
Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador
Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Segue o link http://letras.terra.com.br/chico-buarque/86050/


video

domingo, 22 de maio de 2011

Liberdade



    Esses dias tomei conhecimento das dissidência de vários membros da igreja Betesda, da qual faço parte. Tal fato é extremamente saudável! Mas fico imensamente triste ao ver pessoas maravilhosas virando as costas ao movimento do qual fazemos parte, que busca uma religiosidade livre de caixas que tranquem o pensamento, que busca um evangelho inclusivo, não que essas pessoas não continuarão nessa busca, mas é que juntos somos mais fortes.

   O que venho notando na Betesda é que temos colocado o livre pensar como uma obrigação. Isso para mim é uma contradição...Assim como Deus só é onipotente se puder ser fraco e impotente, a liberdade só é verdadeiramente vivida se puder não se-la.

   Pensamento obrigado a ser livre é excludente.

   A igreja Betesda sempre se mostrou para mim como o lugar de Misericórdia, como essa mesma se coloca, aceitação de pessoas com discursos diversos, pensamentos diversos, é  isso que da o colorido dos encontros entre seus membros. Pensar diferente tem se mostrado uma coisa extremamente perigosa no meio religioso, principalmente evangélico, mas nos quase três anos nessa comunidade, me sinto a vontade pra questionar pontos chave da crença geral, inclusive minha própria, de lideres e etc.

  Agora, quanto a solução...Não tenho-a pronta mas me disponho a construirmos juntos, acredito que estejamos perto de puxar a ponta do fio de um longo, muito longo novelo, daqueles todo engodado. Precisamos de paciência, parcimônia, leveza, carinho. E mais que tudo..precisamos andar. Assim que nos foi ensinado...a andar..sempre em frente..

"Esquecendo-me das coisas que atrás ficam, 
e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo..."

quarta-feira, 13 de abril de 2011

À Mulher Que Me Fez Estátua


Esse é um poeminha antigo meu...Lembrei dele não sei porque, mas queria compartilhar aqui...



À mulher que me fez Estátua

Deixe-me perguntar-te
Mulher,
Como uma coisa tão forte,
Tão bela,
Pode fazer sofrer.

Eu, estando sempre aqui,
Parado...
À espera do teu abraço,
Pesando que em um laço
Prender-te-ei ao meu peito,

Mas toda noite,
Quando a lua desce e beija-me o corpo
Ó...como dói...
Maldita luz à fazer resplandecer minha solidão.

E todo dia
A tortura de ver todos passarem,
Os mesmos rostos e bondes,
Os mesmos pombos e morcegos
Só pra ver você.

Quisera eu jamais ter nascido,
Para nunca ter viso o teu esplendor,
Pois é isto, a tua beleza
que com tanta aspereza
Me lapidou.

domingo, 3 de abril de 2011

Cântico de Humanicade


Cântico de Humanidade

Hinos aos deuses, não. 
Os homens é que merecem 
Que se lhes cante a virtude. 
Bichos que lavram no chão, 
Actuam como parecem, 
Sem um disfarce que os mude. 

Apenas se os deuses querem 
Ser homens, nós os cantemos. 
E à soga do mesmo carro, 
Com os aguilhões que nos ferem, 
Nós também lhes demonstremos 
Que são mortais e de barro. 

Miguel Torga, in 'Nihil Sibi'

*Miguel Torga,  pseudônimo de  Adolfo Correia Rocha(1907-1995)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ser em contradição

Sem mais nada a dizer, nenhuma conclusão...
Me contradisse todas as vezes que pensei em pensar...
Por sinal, já me contradisse nestas linhas também...

domingo, 27 de março de 2011

O que Será [Tudo Isso]



O que será?!

O que será?
Deus meu o que será?
“Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo padre eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar!
O que não tem governo nem nunca terá!
O que não tem vergonha nem nunca terá”
O que não se pode dissimular?
O que não é certo recusar?
O que que vive nas idéias dos amantes
E cantam os poetas delirantes (“Sou quem falhei ser¹.”)?
O que está na fantasia dos infelizes?
E no dia a dia das meretrizes?
O que não tem remédio,
Nem fórmula,
Nem solução nas ciências?
O que os mandamentos não conciliam?
As instituições não conciliam?
O que nos faz viver?
O que nos faz morrer?
O que nos faz sorrir?
O que nos faz sofrer?
O que não tem concerto,
Nem certeza,
Nem tamanho,
Nem decência,
Nem censura,
Nem sentido?
E NUNCA TERÁ?!
Só pode ser o humano que nunca será...
Que não está completo e nunca estará...
Que não está contido e nunca estará...
É o que faz sentido e nunca fará...
É o que é bonito...


Fica então uma música do Lenine:

O Que É Bonito?



O que é bonito
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça

O que é bonito...



¹ Trecho de “Pecado Original” de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

quarta-feira, 16 de março de 2011

O que Será? [2]


O Que Será (A flor da Terra)
Chico Buarque

O que será que será
Que andam suspirando
Pelas alcovas?
Que andam sussurrando
Em versos e trovas?
Que andam combinando
No breu das tocas?
Que anda nas cabeças?
Anda nas bocas?
Que andam acendendo
Velas nos becos?
Estão falando alto
Pelos botecos
E gritam nos mercados
Que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza
Nem nunca terá!
O que não tem concerto
Nem nunca terá!
O que não tem tamanho...
O que será? Que Será?
Que vive nas idéias
Desses amantes
Que cantam os poetas
Mais delirantes
Que juram os profetas
Embriagados
Está na romaria
Dos mutilados
Está nas fantasias
Dos infelizes
Está no dia a dia
Das meretrizes
No plano dos bandidos
Dos desvalidos
Em todos os sentidos
Será, que será?
O que não tem decência
Nem nunca terá!
O que não tem censura
Nem nunca terá!
O que não faz sentido...
O que será? Que será?
Que todos os avisos
Não vão evitar
Porque todos os risos
Vão desafiar
Porque todos os sinos
Irão repicar
Porque todos os hinos
Irão consagrar
E todos os meninos
Vão desembestar
E todos os destinos
Irão se encontrar
E mesmo padre eterno
Que nunca foi lá
Olhando aquele inferno
Vai abençoar!
O que não tem governo
Nem nunca terá!
O que não tem vergonha
Nem nunca terá!
O que não tem juízo...(2x)


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terça-feira, 15 de março de 2011

O que Será?



O Que Será - à Flor da Pele
Chico Buarque


O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mentir e me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo


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sexta-feira, 11 de março de 2011

Contra-senso


Terminei de ler faz uma semana "A Luneta Mágica" de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882). Publicado em 1869 foi provavelmente o primeiro romance da Fantasia Contemporânea. Um livro sensacional. Levou-me a refletir em como nossa vida é influenciada pela forma como vemos o mundo e como perspectivas absolutistas podem nos levar a loucura.
            Resumidamente Simplício é um rapaz míope, diz-se que tem duas miopias, uma física e outra moral, a primeira lhe impede de enxergar qualquer coisa, mesmo a um palmo de distância, a segunda o faz um sujeito sem opinião própria. Um dia ele ganha uma luneta mágica que lhe fornece a visão das coisas físicas, mas após 3 minutos ele ganha também a visão do mal. Quem lhe dá a luneta diz que ele irá quebrar esta luneta, e assim acontece. Ele ganha uma nova luneta mágica, a luneta do bem, que assim como a primeira, lhe dá a visão física e após 3 minutos lhe dá a visão do bem e assim como a primeira esta estava predestinada a ser quebrada.
            Por fim ele recebe uma terceira luneta, a o bom-senso, que tem o mesmo funcionamento das outras, inclusive em sua sina de ser quebrada.
            Simplício garante que jamais quebrará a luneta e assim o livro acaba.
            Por uma questão de lógica esta luneta também será quebrada, para mim isto é certo, mas por quê? Afinal esta luneta dá-lhe uma visão ponderada, que diferente das outras não o jogará em falsos julgamentos.
            Simplício chega ao final do livro sem encontrar o que mais queria. Uma boa mulher para se casar e construir uma família e o autor não se preocupa em dar este desfecho ao livro.
            Simplício mora em cada um de nós, mas então porque, assim como Simplício, mais dia menos dia quebraremos a nossa luneta do som-senso?
            Porque o amor é contra-senso, é contra a lógica! Se enchergarmos o mundo a partir dessa luneta o amor passará de loucura à lógica. Já pensou num Jesus com bom senso? Ao ver tanta surda e cega teria ido procurar outro povo mais lúcido! Ele já havia tentado de tudo. Ensinado, alimentado, cuidado. O bom-senso diz para desistir, afinal “por que amar a quem não me ama?”, mas o amor diz que “se depender de mim eu vou até o fim”
            O que aprendi? Qua não dá para viver vendo o mal e nem o bem, não da para amar vendo as pessoas com senso. O único jeito de amar é nos desnudando de qualquer luneta, ou melhor, usando a única luneta que nos é cobrada ter, a Luneta do Humano.




quarta-feira, 9 de março de 2011

O canto do coração

A Tonga da Mironga do Kabuletê



Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que olha e não vê
Eu vou lhe dar uma pala
Você vai ter que aprender
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê
A tonga da mironga do kabuletê

Eu caio de bossa
Eu sou quem eu sou
Eu saio da fossa
Xingando em nagô

Você que lê e não sabe
Você que reza e não crê
Você que entra e não cabe
Você vai ter que viver
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê
Na tonga da mironga do kabuletê



Você que fuma e não traga
E que não paga pra ver
Vou lhe rogar uma praga
Eu vou é mandar você
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê
Pra tonga da mironga do kabuletê



Sempre em frente

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Sonho de Uma Flauta [2]


            Andei pensando mais sobre o conto de Hermann Hesse esses dias. Tenho pensado no que ele fez quando o barco correu noite à dentro, impossível de voltar atrás.
            De uma coisa tenho certeza, ele não parou de cantar, só que agora suas canções são mais sábias, mais cheias de significado, mais humanas e menos idealizadas.
            Uma banda da qual gosto muito se chama Teatro Mágico, tenho bastante para falar dela, mas por enquanto quero apenas deixar aqui uma música deles, que se chama “Sonho de Uma Flauta” que, para mim, é a canção que sai dos lábios do jovem moço já não tão moço.

Sonho De Uma Flauta

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz
Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa
Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá
A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração
A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração
Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso
Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia
Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem a sede que morre no seio
Nota que fermata quando desafino
Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito...

            A canção do jovem moço é metamorfoseada em canção de homem vivido, entretanto, otimista, pois apesar de ter “dia que parece noite” e “nota que fermata quando desafino” o mundo é perfeito.

O mundo é perfeito...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Sonho de Uma flauta


Já faz tempo que sempre que converso sobre literatura indico este texto, então nada mais natural que postá-lo por aqui. O Sonho de Uma Flauta é um conto de Hermann Hesse (1877-1962) prêmio Nobel de Literatura de 1946 (imagem acima), que conta a história de um jovem rapaz que ganha uma flauta do pai, que o envia para ganhar o mundo em andanças, ele vai e não conto mais nada..vão ter que ler..vale a pena, juro..lá em baixo coloco minhas impressões do texto.


- Toma - disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso - leva isso e não esqueças teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não sabes nenhum outro ofício e só gostas de cantar. Mas pensa também em só tocar sempre canções bonitas e agradáveis, senão seria pena pelo dom que Deus te concedeu.
Meu querido pai entendia pouco de música, não era um sábio; pensava que eu tinha apenas de soprar a linda flautinha e tudo estaria bem. Eu não queria decepcioná-lo, por isso agradeci, botei a flauta no bolso e me despedi.
Nosso vale era conhecido até o grande moinho; depois então começava o mundo, e ele me agradou bastante. Uma abelha cansada do vôo pousou na minha manga, e eu a levei comigo, afim de que no meu primeiro descanso tivesse um mensageiro para mandar de volta, como um cumprimento à minha terra.
Bosques e prados acompanhavam meu caminho, e o rio corria junto, vigorosamente; eu vi, o mundo deferia pouco da minha terra. As árvores e flores, as espigas de trigo e as moitas de avelã falavam comigo, cantei com elas suas canções e elas me compreendiam, exatamente como lá em casa; com isso minha abelha também despertou, subiu devagar até meus ombros, voou e tornou a cruzar duas vezes comigo, com seu zumbido profundo e doce, e então voltou para minha terra.
Aí apareceu diante do bosque uma mocinha, que carregava uma cesta no braço e um largo e sombrio chapéu de palha na cabeça loura.
- Bom dia - disse-lhe eu - aonde vais?
- Devo levar a comida aos ceifeiros - disse ela, e caminhou ao meu lado. - E para onde quereres ir ainda hoje?
- Vou para o mundo, meu pai me mandou. Ele acha que devo tocar flauta para as pessoas, mas isso ainda não sei direito, preciso primeiro aprender.
- Bem, bem. E que sabes então direito? Alguma coisa é preciso saber.
- Nada de especial. Sei cantar canções.
- Que canções?
- Canções de todo o tipo, sabes, para a manhã e para a tarde e para todas as árvores e bichos e flores. Agora, por exemplo, eu poderia cantar uma bonita canção de uma mocinha que vem saindo do bosque e traz comida para os ceifeiros.
- Podes fazer isso? Então canta um pouco!
- Sim, mas como te chamas mesmo?
- Brigite.
Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:
- Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.
Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna e ficou me olhando.
- Queres cantar ainda coisa para mim? - perguntou então, quando terminei.
- Quero, sim. Que deve ser?
- Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.
- Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a borboleta.
- E do amor não sabes nada? - perguntou ela, então.
- Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.
Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe fecha a boca com seus lábios.
Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abri-los e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio refletido ali dentro e um par de brancas flores do prado também.
- O mundo é muito bonito - disse eu - meu pai tinha razão. Mas agora quero te ajudar a carregar isso para que cheguemos até tua gente.
Tomei-lhe a cesta e continuamos a andar, seu passo combinava com o meu e sua alegria com a minha, e o bosque suave e fresco falava da montanha em volta; eu nunca havia caminhado com um prazer tão grande. Durante longo tempo cantei alegremente, até que tive de parar de tanta satisfação; eram coisas demais que rumorejavam e contavam-se sobre o vale e a montanha e a grama e a folhagem e o rio e a floresta.
Aí pensei: se pudesse compreender e cantar ao mesmo tempo essas mil canções do mundo, das gramas e flores e gente e nuvens e tudo, da floresta velha e do pinheiral e também de todos os bichos, e além disso ainda canções dos mares longínquos e montanhas, e as das estrelas e luas, e se tudo isso pudesse ressoar e cantar em mim ao mesmo tempo, então eu seria o querido Deus, e cada nova canção deveria ficar no céu como uma estrela.
Mas enquanto eu assim pensava, estava silencioso e maravilhado, porque aquilo antes nunca me ocorrera, Brigite parou e segurou a alça da cesta.
- Agora devo ir lá em cima - disse ela - lá no campo está nossa gente. E tu, para onde vais? Vens comigo?
- Não, ir contigo não posso. Preciso ir pelo mundo. Obrigado pelo pão, Brigite, e pelo beijo; vou pensar em ti.
Ela segurou a cesta de comida, e sobre a cesta seus olhos novamente se inclinaram para mim em sombras castanhas, e seus lábios prenderam-se aos meus e seu beijo foi tão bom e carinhoso, que quase fiquei triste de tanto prazer. Então gritei rápido:
- Vai com Deus - e marchei apressadamente pela estrada acima.
A moça subiu devagar a montanha, e sob as folhas de faia pendurada na orla do bosque, parou e olhou na minha direção, e quando lhe acenei com o chapéu, ela tornou a balançar a cabeça e desapareceu silenciosamente, como uma miragem, para dentro da sombra do bosque.
Eu, porém, continuei tranqüilamente meu caminho, e estava imerso em meus pensamentos, quando a estrada dobrou numa curva.
Lá havia um moinho e, perto, um barco na água; dentro estava sentado um homem sozinho e parecia apenas esperar por mim, pois quando tirei o chapéu e entrei no barco, este, em seguida, começou a andar e deslizou rio abaixo. Eu estava sentado no meio do barco, e o homem atrás, no leme, e quando lhe perguntei para onde íamos, ele levantou os olhos cinzentos e encarou-me com um olhar velado.
- Para onde quiseres - disse, com uma voz abafada. - Rio abaixo e para o mar, ou para as grandes cidades, podes escolher. Tudo me pertence.
- Tudo te pertence? Então és o rei?
- Talvez - disse ele. - E, ao que me parece, tu és um poeta, não? Então canta-me uma canção de viagem!
Fiz um esforço, estava com medo do homem grisalho e sério, e nosso barco deslizava rápido e silencioso pelo rio. Cantei sobre o rio, que carrega o barco e reflete o Sol e rumoreja mais forte nas margens dos rochedos e completa alegremente seu passeio.
O rosto do homem continuou impassível, e quando prestei atenção, ele balançava a cabeça como um sonhador. Então, para meu espanto, ele próprio começou a cantar, e também cantava sobre o rio, e sobre a viagem do rio através dos vales, e sua canção era mais bela e poderosa que a minha, mas tudo soava diferente.
O rio, tal como ele cantava, vinha como um destruidor vacilante montanha abaixo, escuro e selvagem; furioso, ele se sentia dominado pelos moinhos, coberto pelas pontes, detestava cada navio que precisava carregar, e, em suas ondas e nas longas e verdes plantas aquáticas, rindo, balançava os corpos brancos dos afogados.
Isso tudo não me agradou, e, entretanto era tão belo e cheio de um acento invisível, que fiquei completamente desorientado e angustiado e me calei. Se era certo o que esse velho, sensível e inteligente cantor, cantou com sua voz velada, então todas as minhas cantigas não passavam de tolices e brincadeiras bobas de criança. Então o mundo, por causa delas, não era bom e luminoso como o coração de Deus, e sim escuro e triste, mau e sombrio, e quando os bosques murmuravam, não era de alegria, e sim de martírio.
Seguimos adiante, e as sombras foram longas, e de cada vez que comecei a cantar, meu canto sova menos claro, e minha voz tornava-se mais baixa, e de cada vez o cantor desconhecido respondia com uma canção que tornava o mundo ainda mais enigmático e penoso, e me tornava ainda mais tímido e triste.
Minha alma doía e eu me arrependia de não ter ficado em terra, perto das flores ou da linda Brigite, e para sentir-me seguro no crepúsculo que crescia, recomecei a cantar e cantei na luz vermelha da tarde a canção de Brigite e de seu beijo.
Aí o crepúsculo começou, e eu emudeci, e o homem no leme cantou, e ele também cantava sobre o amor e a alegria do amor, sobre os lábios vermelhos e úmidos, e era lindo o que ele cantava, cheio de dor, sobre o rio escurecido, mas em sua canção também o amor se tornara sombrio e temível, e um segredo mortal, no qual os homens aflitos e feridos tocavam com seu desejo e sua saudade, e com o qual se martirizavam e se matavam uns aos outros.
Escutei e fiquei tão cansado e aflito, como se estivesse viajando desde muito tempo e houvesse passado por grande miséria e desgraça. Vinda do estranho, sentia cair sobre mim uma torrente silenciosa e fria de tristeza e receio, a penetrar no meu coração.
- Pois bem, a vida não é o que há de mais elevado e mais belo - gritei afinal amargamente - e sim a morte. Então te peço, rei triste, canta-me uma canção da morte!
O homem do leme cantou somente sobre a morte, e cantou melhor do que eu jamais ouvira cantar. Mas a morte também não era o que havia de mais elevado e mais belo, nela também não se encontrava consolo. A morte era vida e a vida era morte, e elas estavam entrelaçadas numa perpétua e furiosa luta de amor, e isso era a última coisa e o sentido do mundo, e dali vinha um clarão, que parecia querer valorizar toda a miséria, e de outro lado vinha uma sombra que perturbava toda a alegria e beleza e as envolvia na escuridão. Mas para além da escuridão, a alegria ardia mais íntima e bela, e o amor queimava mais profundamente nessa noite.
Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:
- Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.
O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firma.
- Para trás não há caminho - disse sério e amável. - A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar no mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!
Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.
Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.
Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.
Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.
Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.
E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.
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O texto é muito simbólico, isto é claro, é uma metáfora... O nome do conto é “O sonho de uma flauta” apesar, entretanto ela parece ser uma coadjuvante na história de narrador.
Para mim, me parece que a flauta representa o conflito de gerações, a diferença de linguagem entre uma e outra, entre a geração dos nossos pais e a nossa. Sempre achamos que eles não entendem bem sobre o que estão falando.
Zabé da loca_ http://www.myspace.com/pifedaloca
Mas qual a certa? A minha ou a dele, qual a mais bela, a voz ou a flauta? Não é porque esta não chegou à boca do narrador que não podemos imaginar que seu som seja tão encantador quanto o da voz do rapaz, afinal flauta é um instrumento muito encantador não acha?(adoro o som do pífaro, por exemplo)
Os outros símbolos são mais claros, mas tão importantes quanto para mostrar como é nossa vida, crescer, aprender, ter crises e morrer.
Brigite é nossa infância, alegria da inocência, aurora do espírito, pena que temos que nos separar dela e prosseguir em nossa caminhada, por sinal o movimento é quase incessante durante a narrativa, assim como nossas vidas, e encontrar a nossa maturidade, ver o negro da vida, o azedume da alma, mas também belo, de uma maneira diferente, mas belo!
Seu pai pede-lhe que toque só as coisas bonitas, ele, canta a vida, ora, há coisa mais bela? Parece até que o Belchior está cantando ao fundo que "Apesar de tudo tudo que fizemos ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais".
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