Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar,
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar.
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá,
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular.
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá.
No meio da sala de estar,
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar.
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá,
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular.
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá.
Trecho de “Envelhecer”, Arnaldo Antunes
É interessante como nós tentamos mistificar nossa existência por trás de irrealidades e com isso passamos a não enxergar nem um palmo a nossa frente. Nos olhamos no espelho e nos imaginamos super-heróis, eternos garotos capazes de tudo. Ainda sou jovem, mas sei que quero envelhecer, quero experimentar cada etapa dessa maravilhosa peregrinação que todos realizam, mas nem todos saboreiam, a Vida. Quando negamos nossas incapacidades e fraquezas, nossa estrutura fragmentada, incompleta e inconstante.
Com essa negação de nossa própria natureza, de nossas idiossincrasias (adoro esta palavra) infantilizamos nossa existência, “estreitamos nossa bitola” e perdemos o foco naquilo que é realmente importante. Sermos humanos.
Até mais..