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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Epifania

Nesta passagem de ano pude aproveitar a paisagem da praia de Canoa Quebrada para meditar. Nada mais inspirador do que o mar para dar vazão as minhas inquietações. A conclusão que cheguei é simples e nada nova, mas não posso deixar de falar pois, realmente mudou meinha vida e a forma como enxergo as coisas.
            Sentindo a brisa que assanhava meus cabelos e as ondas que vinham tocar a praia e como ambos eram belos, e ambos se apressavam em desfazer-se, pude, não chegar a conclusão em si, mas sim confirmar e experimentar que o que vale são as coisas pequenas.
            Cansei de cultuar o eterno, o além, o passado e o grandioso. Vou me voltar para o agora, o passageiro, o pequeno, humilde e simples, ao despreocupado e ao desprovido de desejo pelo que menos vale, pois o que mais vale é a brisa, o mar, o pôr e o nascer do Sol, o abraço, o beijo, o amor, o desejo, a amizade...Vou adorar o efêmero, “ o que dá e passa...”.

                 

O Que É Bonito?

Lenine

O que é bonito
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça
O que é bonito...


domingo, 27 de março de 2011

O que Será [Tudo Isso]



O que será?!

O que será?
Deus meu o que será?
“Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo padre eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar!
O que não tem governo nem nunca terá!
O que não tem vergonha nem nunca terá”
O que não se pode dissimular?
O que não é certo recusar?
O que que vive nas idéias dos amantes
E cantam os poetas delirantes (“Sou quem falhei ser¹.”)?
O que está na fantasia dos infelizes?
E no dia a dia das meretrizes?
O que não tem remédio,
Nem fórmula,
Nem solução nas ciências?
O que os mandamentos não conciliam?
As instituições não conciliam?
O que nos faz viver?
O que nos faz morrer?
O que nos faz sorrir?
O que nos faz sofrer?
O que não tem concerto,
Nem certeza,
Nem tamanho,
Nem decência,
Nem censura,
Nem sentido?
E NUNCA TERÁ?!
Só pode ser o humano que nunca será...
Que não está completo e nunca estará...
Que não está contido e nunca estará...
É o que faz sentido e nunca fará...
É o que é bonito...


Fica então uma música do Lenine:

O Que É Bonito?



O que é bonito
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não...
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou...
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça

O que é bonito...



¹ Trecho de “Pecado Original” de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ninguém faz idéia


Pois eu vos digo que, se vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus (Mateus-5,20).



Lenine deve ser de longe o sujeito que mais me toca com suas músicas... Ando pensando nas coisas do Reino etc. e tal e queria compartilhar essa música comigo mesmo. Sinto que ela é uma tradução, uma poematização desse trecho do Sermão da Montanha.
No texto bíblico, existem diversas interpretações, muitas delas desesperadoras, afinal, quem são os “escribas e fariseus”? Nada menos que os mestres da lei, sujeitos que eram tidos como separados, santos! Como poderiam pessoas normais ter uma justiça mais elevada que a “verdadeira comunidade de Israel”? Jesus está inserido no contexto histórico e social de sua época, afinal, “O verbo se fez carne e habitou entre nós”, Ele entrou de pernas e braços, montou barraca, Tabernaculou entre nós.
Jesus, ao impor que nossa justiça deve exceder a dos mestres da lei não coloca a sociedade da época abaixo destes, mas sim coloca os fariseus em pé de igualdade aos “outros”. Ninguém faz idéia de que é humanidade, ninguém faz idéia de que vem lá...

Ninguém Faz Idéia
Malucos e donas de casa
Vocês aí na porta do bar
Os cães sem dono, os boiadeiros
As putas Babalorixás...

Os Gênios, os caminhoneiros
Os sem terra e sem teto
Atôres, Maestros, Djs
Os Undergrounds, os Megastars
Os Rolling Stones e o Rei...

Ninguém faz idéia
De quem vem lá!
De quem vem lá!
De quem vem lá!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!...

Ciganas e neo-nazistas
O bruxo, o mago pajé
Os escritores de science fiction
Quem diz e quem nega o que é...
Os que fazem greve de fome
Bandidos, cientistas do espaço
Os prêmios nobel da paz
O Dalai Lama, o Mister Bean
Burros, Intelectuais...

Eu pensei!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!
De quem vem lá!
De quem vem lá!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!...(2x)

Os líderes de última hora
Os que são a bola da vez
Os encanados, divertidos
Os tais que traficam bebês...
O que bebe e passa da conta
Os do cyber espaço
A capa do mês da playboy
O novo membro da academia
E o mito que se auto destrói...

Eu sei!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!
De quem vem lá!
De quem vem lá!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!...

Os duros, os desclassificados
A vanguarda e quem fica prá traz
Os dorme sujos, os emergentes
Os espiões industriais...
Os que catam restos de feira
Milicos piratas da rede
Crianças excepcionais
Os exilados, os executivos
Os clones e os originais...

É a lei!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!
De quem vem lá!
De quem vem lá!
Ninguém faz idéia
De quem vem lá!...(2x)

Os Anjos, os Exterminadores
Os Velhos jogando bilhar
O Vaticano, a CIA
O Boy que controla radar
Anarquista, Mercenários, quem é
Quem é e quem fabrica notícia
Quem crê na reencarnação
Os Clandestinos, os Ilegais
Os Gays, os Chefes da Nação
Ninguém faz idéia
De quem vem lá...



            Um ponto do texto que me abalou foi o “de modo nenhum entrareis no Reino dos céus”, passei um bom tempo remoendo esse trechinho, afinal é ameaçador, mostra a figura do Cristo mais para carrasco que para Deus amoroso.
            Mas primeiro, onde é o Reino dos céus? Quando leio os evangelhos vejo um Cristo muito mais preocupado com o aqui e agora que com o pós-morte, ao nos ensinar a orar ele diz “Venha o teu Reino” (ou também “Venha a nós o Vosso Reino”), e “Seja feita a Tua vontade na terra como no céu”. Céu e terra são o Reino, afinal:

“Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus.”
“Bem-aventurados os humildes, pois herdarão a terra.”

            Terra e Reino dos Céus são prometidos para os mansos...
            Em muitas passagens da bíblia temos o termo “O Reino dos Céus está próximo”. Em outras versões o texto é traduzido para “O Reino dos Céus é chegado”, ora, o que está chegado está próximo, mas quando colocamos o termo próximo no texto temos, creio que por cultura, lemos no sentido temporal, porém, o Reino é aqui, está aqui!
            O Reino dos Céus é aqui, mas como não podemos entrar?
      Creio que o Reino dos Céus que está no meio de nós está fundamentado no relacionamento, na humanidade, não em um conjunto de regras, ou instituição, seja ela qual for. Como disse um sujeito admirável certa vez, quando foi instituída a Way of Life dos fariseus, ela não tinha o objetivo de formar um grupo de hipócritas rodeado de coisas podres e jogos de interesse, mas devido a uma má interpretação, a contingencia da vida e a própria origem falha do homem o tornaram como tal. Inclusive, segundo a Wikipédia, a origem da palavra fariseu é a mesma da paravra santo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fariseus).
            O jeito fariseu de viver, com seu senso de justiça torpe, não os deixava serem humanos, se relacionar com honestidade, tanto com Deus quanto com os homens (Lucas 18,9-14). Jesus não gostava de se relacionar com pessoas perfeitas, pelo contrário, desfrutava da companhia de pessoas consideradas inapropriadas para um relacionamento.
            Por tanto, ao termos uma justiça que excede a dos fariseus, não somos mais cheios de regras, teologias, métodos ou qualquer coisa que o valha, somos humanos, permitimo-nos sermos apenas humanos, “salvos da perfeição” ou da tentativa de tê-la. É tudo que eu quero. Ser humano...
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